A Palavra que Resta

A Palavra que Resta

**A Palavra que Resta**, romance de estreia de Stênio Gardel que venceu o National Book Award de Tradução em 2023, conta a história de Raimundo, um homem de 71 anos que decide se alfabetizar para ler a carta que seu amor secreto da juventude lhe deixou há cinquenta anos. Uma narrativa sensível sobre exclusão, sexualidade ocultada e o poder da palavra.

por Stênio Gardel

4.1/5
Editora: Companhia das Letras

Sinopse

Sinopse da editora

Neste primoroso romance de estreia, acompanhamos a trajetória de Raimundo, homem analfabeto que na juventude teve seu amor secreto brutalmente interrompido e que por cinquenta anos guardou consigo uma carta que nunca pôde ler. * Livro vencedor do National Book Award de melhor obra traduzida de literatura. Aos 71 anos, Raimundo decide aprender a ler e a escrever. Nascido e criado na roça, não foi à escola, pois cedo precisou ajudar o pai na lida diária. Mas há muito deixou a família e a vida no sertão para trás. Desse tempo, Raimundo guarda apenas a carta que recebeu de Cícero, há mais de cinquenta anos, quando o amor escondido entre os dois foi descoberto. Cícero partiu sem deixar pistas, a não ser aquela carta que Raimundo não sabe ler - ao menos até agora. Com uma narrativa sensível e magnética, o escritor cearense Stênio Gardel nos leva pelo passado de Raimundo, permeado de conflitos familiares e da dor do ocultamento de sua sexualidade, mas também das novas relações que estabeleceu depois de fugir de casa e cair na estrada, ressignificando seu destino mais de uma vez. "A magnitude deste romance está, primeiro, na invenção de um enredo poderoso sobre a dor da exclusão - a exclusão da miséria, do analfabetismo, da solidão, do preconceito. E se completa com a força da linguagem que molda a história, palavra a palavra, na tradição dos grandes narradores brasileiros." - Socorro Acioli, autora de A cabeça do santo
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Resenha: vale a pena ler A Palavra que Resta, de Stênio Gardel?

Imagine um envelope amarelado, dobrado e desdobrado tantas vezes que o papel quase se parte. Você o guarda há cinquenta anos, mas não consegue abri-lo de verdade, não por falta de coragem, mas porque as letras simplesmente não dizem nada. Essa é a vida de Raimundo, protagonista de A Palavra que Resta, romance de estreia do cearense Stênio Gardel que acaba de vencer o National Book Award de 2023 na categoria Tradução. Aos 71 anos, Raimundo decide aprender a ler e escrever. O motivo? Finalmente entender o que Cícero, seu amor secreto da juventude, deixou naquele pedaço de papel antes de desaparecer.

Não se trata de um suspense sobre o conteúdo da carta. O livro esculpe a trajetória de Raimundo sem pressa, revelando camadas de dor e silêncio. É a história de um homem que passou a vida inteira do lado de fora da própria história, analfabeto, pobre, homossexual no sertão, e que agora busca uma chave para entrar.

Cinquenta anos e um envelope que o tempo não conseguiu abrir

A estrutura não é linear: Gardel alterna o presente, marcado pela rotina de aprendizado e pela solidão do protagonista, com as memórias do passado na roça. Raimundo cresceu ajudando o pai na lida diária, sem acesso à escola, e logo viu seu amor por Cícero ser destruído quando os dois foram descobertos. A violência da ruptura não é espetacularizada; o autor a faz doer no silêncio, na fuga de casa, na carta que virou um objeto sem sentido, mas impossível de jogar fora.

Enquanto Raimundo aprende a juntar as letras, o leitor acompanha os pedaços de uma vida que ele foi remontando na estrada, longe da família. Nenhum spoiler sobre o que a carta diz, até porque o livro entende que o mais importante não está lá, e sim na decisão de abri-la.

O amor que o sertão abafou, a palavra que a escola negou

A obra gira em torno de duas ausências que se entrelaçam: o amor proibido e a palavra escrita. A carta lacrada é o símbolo de uma vida inteira privada de afeto e de significado. Gardel mostra como o analfabetismo não isola apenas da informação, mas da possibilidade de se narrar. Raimundo não consegue ler a carta de Cícero, assim como nunca pôde ler a si mesmo.

Outro tema forte é a sexualidade ocultada. O romance não faz panfletagem; é a história de um homem que se acostumou a viver nas sombras, e o aprendizado tardio da escrita é também um jeito de emergir. A exclusão social, pela miséria, pela origem rural, pelo preconceito, está em cada página, mas nunca como discurso didático.

A voz de Raimundo: menos é mais nesta estreia premiada

Stênio Gardel escreve com a contenção de quem sabe que o excesso de palavras apagaria a força do que não foi dito. A prosa é enxuta, sem adornos, quase como se o próprio Raimundo estivesse aprendendo a escrever enquanto narra. Não há rebuscamento, e é exatamente aí que mora a potência: a emoção chega pelos vazios, pelo ritmo calmo, pela repetição de gestos simples.

Comparado a outros romances brasileiros que tratam do sertão e da memória, A Palavra que Resta ecoa a tradição sem copiá-la. Não há hermetismo nem nostalgia barata, só a voz de um homem comum que, aos 71 anos, resolveu se inventar. A brevidade do livro (cerca de 150 páginas) é um acerto: nada sobra, e o leitor fecha as páginas com a sensação de que ouviu uma confissão longa e íntima.

Para quem é A Palavra que Resta (e para quem não é)

  • Quem busca romance brasileiro contemporâneo com raiz regional e carga emocional densa: vai encontrar aqui uma história que pesa sem fazer alarde.
  • Leitores de literatura LGBT que valorizam narrativas de identidade construídas com sutileza: a jornada de Raimundo é dolorosa, mas nada panfletária.
  • Quem espera ação, reviravoltas ou o suspense de um segredo explosivo: talvez se frustre. O ritmo é contemplativo e o clímax está mais na transformação interna do que em acontecimentos externos.

O troféu que cruzou o oceano: o National Book Award

Vencer o National Book Award na categoria Tradução em 2023 colocou o romance de Stênio Gardel no mapa internacional. Não é pouca coisa: uma estreia brasileira publicada por uma grande editora recebendo um dos prêmios mais importantes do mundo anglófono. O reconhecimento confirma o que a leitura já entrega: uma obra local que conversa com qualquer pessoa que já sentiu o peso de um recomeço tardio.

Veredito: a resposta cabe no silêncio depois da última página

A Palavra que Resta vale cada minuto de leitura. Não porque promete uma grande revelação, mas porque a maneira como Raimundo chega até ela redefine o que importa. Aquela carta guardada por cinquenta anos finalmente encontra seu destinatário, e, no fundo, é como se cada leitor recebesse a sua própria versão do envelope. Aprendemos com Raimundo que nunca é tarde para juntar as palavras e dar sentido ao que ficou calado.

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Nossa Avaliação

4.1/5

Escrita
4.5/5
Ritmo
3.5/5
Originalidade
4.0/5
Recepcao
4.5/5

A escrita precisa e despojada de Gardel constrói uma voz autêntica para Raimundo, mas o andamento intimista pode soar lento para quem espera conflitos mais explícitos. Ainda assim, o livro conquistou reconhecimento internacional justificado e oferece uma experiência emocional que supera a brevidade da obra.


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Perguntas frequentes

Sobre o que é o livro A Palavra que Resta?

É o romance de estreia de Stênio Gardel sobre Raimundo, homem de 71 anos que se alfabetiza para ler uma carta de Cícero, seu amor secreto da juventude no sertão.

A Palavra que Resta tem quantas páginas?

O livro é curto, com aproximadamente 150 páginas.

A Palavra que Resta faz parte de série?

É o romance de estreia de Stênio Gardel e não faz parte de uma série.

Tem filme ou série de A Palavra que Resta?

Não há adaptações para filme ou série registradas até o momento.

A Palavra que Resta ganhou prêmio?

Sim, venceu o National Book Award de 2023 na categoria Tradução.

A Palavra que Resta é indicado para quem?

Indicado para quem busca ficção brasileira contemporânea, literatura LGBT e histórias sobre o Nordeste. Não é para quem procura ação ou suspense.

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Atualizado em 15/08/2026

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