Ainda Estou Aqui

Ainda Estou Aqui

Ainda Estou Aqui, de Marcelo Rubens Paiva, narra a luta de sua família pela verdade sobre o desaparecimento do pai, Rubens Paiva, durante a ditadura militar, e a trajetória de resiliência da mãe, Eunice Paiva, que se reinventou como advogada e defensora de direitos indígenas, enfrentando ainda o Alzheimer no final da vida.

por Marcelo Rubens Paiva

4.5/5
Editora: Leya
Páginas: 220

Sinopse

Sinopse da editora

Em Ainda Estou Aqui, Marcelo Rubens Paiva traça uma história dramática da luta da sua família pela verdade. Eunice Paiva é uma mulher de muitas vidas. Casada com o deputado Rubens Paiva, esteve ao seu lado quando foi cassado e exilado, em 1964. Mãe de cinco filhos, passou a criálos sozinha quando, em 1971, o marido foi preso por agentes da ditadura, a seguir torturado e morto. No meio daquela dor, ela reinventouse. Voltou a estudar, tornou-se advogada, defensora dos direitos indígenas. Nunca chorou na frente das câmaras. Ao falar de Eunice, e da sua última luta, desta vez contra o Alzheimer, Marcelo Rubens Paiva fala também da memória, da infância e do filho. E mergulha num momento obscuro da história recente brasileira para contar – e tentar entender – o que de facto ocorreu com Rubens Paiva, seu pai, naquele mês de janeiro de 1971. Ainda estou aqui foi adaptado ao cinema por Walter Salles, com Fernanda Torres e Fernanda Montenegro a interpretar Eunice Paiva, em diferentes idades, e Selton Mello no papel de Rubens Paiva. Um estrondoso sucesso no cinema, venceu o prémio de Melhor Argumento no Festival de Veneza, com Fernanda Torres a ser eleita Melhor Atriz pelo Critics Choice Awards 2024.
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Resenha do livro Ainda Estou Aqui, de Marcelo Rubens Paiva

A pergunta que Ainda Estou Aqui não deixa você escapar é: o que resta de uma família quando o estado arranca o centro dela e depois finge que nada aconteceu? Marcelo Rubens Paiva responde com um livro que não é só sobre o pai desaparecido, mas sobre a mãe que se recusou a desaparecer junto.

A obra nasceu de uma tragédia concreta: em janeiro de 1971, o deputado Rubens Paiva foi preso em casa por agentes da ditadura, levado, torturado e morto. O corpo nunca apareceu. O país seguiu em frente, mas a família não. A trama, porém, não se fixa no dia da prisão. Ela circula, como a memória faz, entre a infância do autor, a juventude dos pais e o presente em que Eunice Paiva, a mãe, enfrenta o Alzheimer.

Quando o silêncio do estado pesa mais que a memória que se apaga

A história do Brasil recente entra no livro como uma gaveta emperrada: você puxa com força, ela range, mas não abre de vez. Paiva não escreve como historiador. Ele escreve como filho que ainda tenta entender o que aconteceu naquela sala, naquela noite. O livro alterna a busca por documentos e testemunhos com cenas domésticas: o cheiro da cozinha, o barulho dos irmãos, a mãe que não soltava uma lágrima na frente de ninguém.

Eunice Paiva é o fio condutor. Depois da morte do marido, ela voltou a estudar, formou-se em Direito e tornou-se defensora dos direitos indígenas. O Alzheimer, anos depois, veio apagar parte dessa trajetória. O livro, então, faz o trabalho oposto: registra, nomeia, insiste.

Alzheimer, ditadura e luto: a tríade que sustenta o livro

O grande acerto de Ainda Estou Aqui é não separar os dramas em pastas. O luto sem corpo, sem certidão de óbito, sem fechamento, se mistura com a doença degenerativa da mãe. A memória individual ameaçada pelo Alzheimer e a memória coletiva ameaçada pelo silêncio oficial andam no mesmo ritmo. O livro não romantiza a resiliência de Eunice: ela não é uma heroína de filme, é uma mulher que simplesmente não teve escolha a não ser continuar.

A ressalva concreta está na oscilação de tom. O autor às vezes entra em modo investigativo, com datas e documentos, e sai dele de repente para uma cena de infância. A transição nem sempre é suave, e quem espera uma linha reta pode sentir o tranco.

O tom coloquial de Marcelo Rubens Paiva: acerto e tropeço

Paiva escreve como quem conta a história à mesa de jantar, depois do café. A linguagem é direta, quase oral. Isso funciona porque o material é íntimo demais para um tratamento acadêmico ou floreado. Quando ele descreve a mãe voltando a estudar depois dos 50 anos, parece uma atleta quebrando o próprio recorde na maratona: não tem glória, tem necessidade.

O ponto baixo é quando o livro tenta juntar o jornalismo de investigação com o relato pessoal e a costura aparece. O ritmo engasga em alguns parágrafos, e o leitor sente que o autor está puxando dois fios ao mesmo tempo, sem conseguir dar nó.

Para quem encara o abismo e para quem desvia o olhar

  • Entre de cabeça se: você tem estômago para relatos sobre a ditadura militar brasileira, quer entender como uma família real sobreviveu à perda e ao silêncio, e não se incomoda com uma narrativa que balança entre o depoimento pessoal e a apuração histórica.
  • Passe longe se: você está atrás de uma leitura leve para o fim de semana, ou espera um memorialismo com final feliz e moral da história.

Veredito final

Vale sim, para quem encara o livro não como um passatempo, mas como um dever de casa com a própria história do país. Ele compensa quando você aceita que a narrativa não vai te dar todas as respostas, e sim a dimensão do que a falta delas fez com uma família. A adaptação para o cinema, dirigida por Walter Salles, com Fernanda Torres e Fernanda Montenegro nos papéis de Eunice, e Selton Mello como Rubens, só ampliou o alcance dessa história, mas o livro continua sendo o lugar onde o testemunho é mais áspero e menos editado.

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Nossa Avaliação

4.5/5

Escrita
4.0/5
Originalidade
4.0/5
Recepcao
5.0/5
Ritmo
4.0/5

Paiva escreve com tom coloquial e direto, o que funciona pela intimidade do material. O entrelaçamento entre memória individual e história política é o ponto mais forte, dando ao relato uma relevância que extrapola o âmbito pessoal. Há certa oscilação entre o registro memorialístico e o investigativo que afeta o ritmo em alguns trechos, mas a urgência emocional compensa. O sucesso da adaptação cinematográfica de Walter Salles, com prêmios no Festival de Veneza e no Critics Choice Awards, confirma a potência do texto original.


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Perguntas frequentes

Do que se trata o livro Ainda Estou Aqui?

É um relato de Marcelo Rubens Paiva sobre a história de sua família, com foco na luta de sua mãe, Eunice Paiva, e na busca pela verdade sobre o desaparecimento de seu pai, Rubens Paiva, preso e morto por agentes da ditadura militar em 1971.

Quantas páginas tem Ainda Estou Aqui?

O livro tem 220 páginas, publicadas pela editora Leya.

Ainda Estou Aqui faz parte de alguma série?

Não, é uma obra independente, de caráter memorialístico e autobiográfico, não integrante de série ou saga.

Tem filme de Ainda Estou Aqui?

Sim, ganhou adaptação cinematográfica em 2024, dirigida por Walter Salles, com Fernanda Torres e Fernanda Montenegro interpretando Eunice Paiva em diferentes fases, e Selton Mello como Rubens Paiva. O filme venceu o prêmio de Melhor Argumento no Festival de Veneza, e Fernanda Torres foi eleita Melhor Atriz pelo Critics Choice Awards 2024.

Para quem é indicado o livro?

Para quem tem interesse na história recente do Brasil, especialmente o período da ditadura militar, e para quem aprecia biografias familiares e relatos de mulheres que enfrentaram adversidades históricas concretas.

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Atualizado em 20/08/2026

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