Sagarana

Sagarana

**Sagarana**, de João Guimarães Rosa, é a estreia de um gigante: uma coletânea de nove contos que mergulha no sertão de Minas Gerais com uma língua inventiva que vira personagem. Não é uma leitura preguiçosa, você vai suar a camisa, mas a recompensa é uma prosa que canta, range e dança na sua cabeça.

por João Guimarães Rosa

4.5/5
Editora: Global Editora e Distribuidora Ltda

Sinopse

Sinopse da editora

O livro que marcou a estreia de Guimarães Rosa na literatura brasileira. Sagarana traz cenários e personagens típicos do interior do país, mais especificamente do sertão de Minas Gerais. Morros, riachos, jagunços, vaqueiros, bois e cavalos povoam as páginas das estórias magistralmente construídas por Guimarães Rosa, cuja habilidade para criar enredos e protagonistas diversos e repletos de detalhes encanta leitores até hoje e permanece influenciando gerações e gerações de escritores. A linguagem inventiva de Sagarana é outro aspecto que distinguiria para sempre o autor no campo da literatura brasileira. Ao mesmo tempo em que incorpora fragmentos essenciais da oralidade sertaneja, pescando regionalismos e recuperando antigas expressões de linguagem do sertão, Rosa inova com a criação de neologismos cuidadosamente lapidados. Dentre os nove contos que fazem parte do livro, destacam-se os célebres "A hora e vez de Augusto Matraga", "Conversa de bois" e "O burrinho pedrês". Em que pese as narrativas terem como espaço o ambiente sertanejo, o leitor perceberá que os dilemas apresentados por suas personagens ultrapassam naturalmente a dimensão local, refletindo dramas e vivências que se mostram universais. Esta edição traz um texto de apresentação de autoria de Walnice Nogueira Galvão, professora emérita de Teoria Literária e Literatura Comparada da Universidade de São Paulo (USP) e grande especialista na obra rosiana, além de um texto de autoria de Antonio Candido publicado em O Jornal no ano de lançamento de Sagarana, no qual o eterno mestre da crítica literária brasileira saúda a estreia daquele que viria a ser um de nossos mais destacados escritores. A capa foi concebida pelos designers gráficos Victor Burton e Anderson Junqueira e traz uma foto de autoria de Araquém Alcântara, um dos maiores fotógrafos de natureza do Brasil, tirada em 2012 no município de Jaíba, Minas Gerais.


Resenha: vale a pena ler Sagarana, de João Guimarães Rosa?

Você já tentou montar num cavalo xucro pela primeira vez? A sela parece um trambolho, o couro range, e o bicho se mexe de um jeito que desmancha qualquer pose de peão. Sagarana é isso: você abre o livro, e o primeiro conto já te sacode.

Sagarana, de João Guimarães Rosa, não é simplesmente uma coletânea de nove contos sobre o sertão de Minas Gerais. É a estreia de um autor que, em 1946, virou a literatura brasileira pelo avesso. O livro é um pacto: ele te exige fôlego, mas te devolve uma experiência que parece ter sido garimpada a mão.

Um vaqueiro de letras, nove histórias e nenhuma linha reta

Nove contos, nenhum deles enfileirado como em cartilha. Em "O burrinho pedrês" você acompanha uma viagem de vaqueiros, onde a paisagem e o bicho tomam a cena mais que qualquer conflito humano. "Conversa de bois" é uma história que flerta com o fantástico, onde os animais ganham voz e uma tensão cresce sem que ninguém levante a mão. Já "A hora e vez de Augusto Matraga" é um conto sobre um homem que perde tudo, dinheiro, posição, dignidade, e espera a chance de recomeçar.

Não existe um enredo único, mas um mosaico de vidas que se desenrolam em morros, riachos e pastos. Rosa não te dá herói ou vilão fácil: ele dá gente de carne, osso e contradição.

O que o sertão tem a ver com a sua vida?

À primeira vista, parece que o livro fala de jagunços e vaqueiros, algo que o leitor urbano encara com um cacoete de distância histórica. Só que Rosa desarma isso. Os dilemas, honra, vingança, fé, o medo do desconhecido, não são folclóricos. São ossos do ofício de ser humano.

O autor se recusa a tratar o sertão como vitrine. O leitor percebe que o homem do campo não é um bicho exótico, mas um sujeito que carrega dramas que qualquer morador de apartamento reconhece. A morte, a aventura, a relação tensa com os animais: tudo ali ecoa questões que você carrega no peito, mesmo a quilômetros de distância de qualquer pé de café.

A língua que Guimarães Rosa inventou (e o preço que você paga)

Aqui está o pulo do gato: a escrita de Rosa não é transparente. Ele incorpora a oralidade sertaneja, resgata expressões que já tinham virado pó e ainda inventa palavras novas. Não é enfeite: é a matéria-prima do livro.

Você tropeça. Volta. Relê. É normal. Essa invenção é o que faz a prosa cantar e, ao mesmo tempo, o que pode te cansar. Um trecho que um autor comum resolveria com uma linha, Rosa alonga em duas frases de sons e ritmos. A leitura de Sagarana é desafiadora, sem desculpa.

Para quem serve (e para quem não serve) Sagarana

Se você procura uma leitura de final de semana para ler em duas viagens de metrô, com uma linguagem que desliza, pule fora. Este livro não te poupa: exige calma, caneta na mão e disposição para fuçar um dicionário (ou o Google). A obra é para quem quer sentir o peso de cada frase, para quem se interessa pela cultura do sertão e topa uma prosa que é um pouco de ourivesaria, um pouco de feitiçaria. Não é um colírio para preguiçosos.

Para quem já leu Grande Sertão: Veredas ou Campo Geral, ambos do mesmo autor, Sagarana funciona como o negativo de uma foto: você vê, em estado mais bruto, os gestos que depois seriam lapidados na obra-prima.

Vale a pena? Um copo d'água tirado de poço fundo

Então, vale a pena ler Sagarana? Sim, se você estiver disposto a pagar o preço da passagem. Rosa não entrega a prosa de mão beijada. Ele te faz descer no poço, balde por balde, até a água fria subir. E aí você bebe. A obra é uma leitura que começa como obstáculo e termina como recompensa: um copo d'água que só tem gosto da terra porque você foi quem tirou.


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Nossa Avaliação

4.5/5

Escrita
5.0/5
Originalidade
5.0/5
Recepcao
4.5/5
Ritmo
3.5/5

Rosa esculpe cada frase como um ourives, e a originalidade da obra é inquestionável: não existia nada parecido antes de 1946. O ritmo, porém, pode ser um ponto de atenção para quem não está acostumado, a leitura exige pausa, releitura, e às vezes a prosa tropeça num neologismo que te joga para fora do conto. A recepção histórica e crítica é avassaladoramente positiva, mas a nota de ritmo reflete o esforço que o texto impõe.


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Informações Extras

Ordem da Série: 1


Perguntas frequentes

O que significa o título Sagarana?

Sagarana é uma palavra inventada por Guimarães Rosa, uma junção de "saga" (história, lenda) com "rana" (sufixo tupi que significa "parecido com"). O título já anuncia a proposta do livro: histórias que lembram sagas, mas com sotaque brasileiro.

Sagarana é um livro fácil de ler?

Não é uma leitura de final de semana despreocupada. A linguagem de Rosa é inventiva e exige atenção, mas não chega a ser um bicho de sete cabeças. É como aprender um novo sotaque: nas primeiras páginas você estranha, depois começa a sentir o gosto.

Sagarana faz parte de uma série?

Não. O livro é a estreia solo de Guimarães Rosa, e os contos são independentes entre si. Você pode ler na ordem que quiser, como quem pega e come uma fruta de uma cesta.

Sagarana é um bom começo para conhecer Guimarães Rosa?

Sim, é uma porta de entrada interessante. A coletânea exige menos perna do que Grande Sertão: Veredas — e já mostra tudo que faz de Rosa um dos maiores escritores brasileiros: a língua esculpida, os personagens que parecem de carne e osso, e o sertão que cabe o mundo inteiro.

Qual é o melhor conto de Sagarana?

A maioria dos leitores e da crítica aponta "A hora e vez de Augusto Matraga" como o auge do livro. É a história de um homem que toca o fundo do poço, se reergue e espera o seu momento. Mas cada conto tem um sabor: "O burrinho pedrês" é cheio de oralidade e uma ponta de humor, enquanto "Conversa de bois" é uma pérola de lirismo e tensão.

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Atualizado em 20/08/2026

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