As Meninas

As Meninas

As Meninas, romance de Lygia Fagundes Telles publicado em 1973, retrata a convivência de três universitárias com perfis opostos em um pensionato de freiras em São Paulo durante a ditadura militar. A obra entrelaça dilemas existenciais, sexualidade, drogas e militância política por meio de uma narrativa polifônica marcante.

por Lygia Fagundes Telles

4.5/5
Editora: Editora Companhia das Letras
Páginas: 220

Sinopse

Sinopse da editora

São Paulo, 1973, auge da ditadura militar. Num pensionato para moças, as universitárias Lorena, Lia e Ana Clara iniciam a vida adulta num mundo conturbado por rápidas transformações. Lygia Fagundes Telles entrelaça de modo sutil e complexo as trajetórias dessas meninas às voltas com o sexo, as drogas e a repressão política. * Leitura obrigatória do vestibular da Fuvest. Num pensionato de freiras paulistano, em 1973, três jovens universitárias começam sua vida adulta de maneiras bem diversas. A burguesa Lorena, filha de família quatrocentona, nutre veleidades artísticas e literárias. Namora um homem casado, mas permanece virgem. A drogada Ana Clara, linda como uma modelo, dividese entre o noivo rico e o amante traficante. Lia, por fim, milita num grupo da esquerda armada e sofre pelo namorado preso. As meninas colhe essas três criaturas em pleno movimento, num momento de impasse em suas vidas. Transitando com notável desenvoltura da primeira pessoa narrativa para a terceira, assumindo ora o ponto de vista de uma ora de outra das protagonistas, Lygia Fagundes Telles constrói um romance pulsante e polifônico, que capta como poucos o espírito daquela época conturbada e de vertiginosas transformações, sobretudo comportamentais. Obra de grande coragem na época de seu lançamento (1973), por descrever uma sessão de tortura numa época em que o assunto era rigorosamente proibido, As meninas acabou por se tornar, ao longo do tempo, um dos livros mais aplaudidos pela crítica e também um dos mais populares entre os leitores da autora. "Que beleza, que força, que matéria viva e lancinante em As meninas." Carlos Drummond de Andrade "Lygia Fagundes Telles tem realmente algo da delicadeza atmosférica de uma Katherine Mansfield. A diferença é apenas a seguinte: ela também sabe escrever romance e As meninas é mesmo um romance de alta categoria." Otto Maria Carpeaux


Resenha de As Meninas: o romance de Lygia Fagundes Telles ainda conversa com você?

Se você chegou até aqui porque viu o livro na lista do vestibular ou porque procura um romance brasileiro sobre ditadura que fuja dos panfletos óbvios, a resposta curta é sim. As Meninas resolve exatamente essa busca. O texto não se comporta como um documento burocrático de época nem como um dramalhão de época: ele coloca você dentro da cabeça de quem precisava escolher como viver enquanto o país pegava fogo ao redor.

Publicado em 1973, em plena vigência do AI-5, o livro da escritora paulista desafiou a censura com uma ousadia espantosa para o momento. A história se passa em São Paulo e acompanha três garotas no início da vida adulta. Elas dividem o mesmo teto, mas encaram o mundo por frestas totalmente opostas.

Três caminhos que colidem dentro de um quarto de pensionato

A trama acompanha Lorena, Lia e Ana Clara, três universitárias hospedadas em um pensionato de freiras paulistano. Os quartos do convento funcionam quase como trincheiras particulares de três destinos incompatíveis sob o mesmo teto abafado. Lorena vem de família quatrocentona, tem ambições intelectuais, vive uma paixão platônica por um homem casado e preserva a virgindade como um relicário íntimo.

Lia, apelidada de Liúça, milita na luta armada de esquerda e carrega a angústia de ter o companheiro trancado nos porões do regime. Ana Clara, linda e devastada, afunda na dependência química enquanto tenta decidir se casa por interesse com um sujeito rico ou se afunda com o amante traficante. As Meninas flagra esse trio em um fim de semana decisivo, onde cada decisão parece carregar um peso irreversível.

O peso do medo e do desejo sob o regime militar

Em vez de resumir os anos de chumbo a discursos inflamados, a narrativa desce até os corpos e os quartos fechados. A autora mostra como a repressão política contamina a intimidade, o sexo e os laços de afeto. A política aqui não é assunto de comício distante: ela entra na conversa como o medo real de passos no corredor e de amigos que somem sem deixar rastro.

O ponto mais impressionante da obra é a coragem temática. A narrativa de Lygia Fagundes Telles inclui uma descrição explícita de tortura política em pleno regime militar, transmitida por meio de um depoimento gravado que quebra o conforto estético de Lorena. Poucos livros de literatura brasileira conseguiram registrar aquela fratura social com tanta sensibilidade humana e frieza cirúrgica ao mesmo tempo.

O choque de vozes que exige fôlego de quem lê

A estrutura do romance é polifônica e salta da primeira para a terceira pessoa sem avisar. Você entra no fluxo de pensamentos de Lorena e, na linha seguinte, é jogado para a mente de Ana Clara, que opera como uma lâmpada fluorescente piscando antes de queimar entre comprimidos e delírios. Esse vaivém cria uma sensação vertiginosa, muito parecida com o ritmo de um filme de montagem rápida.

Essa escolha estilística, porém, cobra seu preço. As primeiras trinta páginas exigem paciência redobrada. Se você se distrai com facilidade, vai precisar voltar alguns parágrafos para entender quem está falando em determinados trechos. Não é uma leitura para fazer com a TV ligada ao lado.

Quem vai aproveitar a obra e quem deve passar longe

Esta leitura é perfeita para quem gosta de ficção psicológica intensa, romances históricos nacionais e histórias com protagonistas femininas complexas. Se você já leu outras obras da autora, como a coletânea Invenção e Memória, vai reconhecer aqui a mesma maestria na observação dos pequenos gestos humanos.

Por outro lado, você deve passar longe desta obra se o seu objetivo atual for entretenimento escapista, tramas lineares com começo, meio e fim mastigados, ou narrativas leves para relaxar antes de dormir. O livro lida com violência de Estado, abuso, dependência química e autodestruição sem usar filtros amenizadores.

Vale muito a pena ler As Meninas hoje

Vale a pena ler As Meninas porque o livro entrega um retrato vivo da juventude sufocada dos anos setenta, sem lição de moral. Em vez de entregar respostas fáceis, o texto deixa ecoando na memória o contraste entre o barulho dos protestos na rua e a solidão silenciosa de três jovens tentando não se afogar.

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Nossa Avaliação

4.5/5

O romance impressiona pela construção polifônica impecável e pela coragem histórica de abordar a repressão política e a tortura em 1973. A narrativa é densa e exige foco no início devido à constante alternância de vozes, mas recompensa com uma força literária poucas vezes igualada na ficção brasileira.


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Perguntas frequentes

Qual é a história principal do livro As Meninas?

O livro acompanha três universitárias paulistanas em 1973 que dividem um pensionato de freiras: a rica e intelectual Lorena, a militante de esquerda Lia e a autodestrutiva Ana Clara, cada uma enfrentando os dilemas da juventude sob a ditadura militar.

Por que As Meninas foi um marco na época da ditadura?

Publicado em 1973, no auge da repressão do regime militar, o romance driblou a censura ao incluir a descrição direta de uma sessão de tortura política por meio do relato de um personagem.

Como é a estrutura narrativa de As Meninas?

Lygia Fagundes Telles utiliza uma técnica polifônica inovadora, alternando o foco narrativo entre a primeira e a terceira pessoa e intercalando os fluxos de consciência das três protagonistas sem aviso prévio.

O livro As Meninas possui adaptação para o cinema?

Sim, a obra foi adaptada para os cinemas em 1995 em um longa-metragem homônimo dirigido por Emiliano Ribeiro.

Quantas páginas tem o livro As Meninas de Lygia Fagundes Telles?

A edição publicada pela Editora Companhia das Letras conta com 220 páginas.

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Atualizado em 18/08/2026

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