Banquete com os Deuses

Banquete com os Deuses

Banquete com os Deuses reúne 73 crônicas de Luis Fernando Verissimo sobre cinema, música e literatura. O autor gaúcho transforma suas paixões culturais em textos curtos que vão de Borges a Cartola, com humor e inteligência. É um convite para revisitar suas próprias referências, e sair com fome de mais.

por Luis Fernando Verissimo

4.0/5
Editora: Objetiva

Sinopse

Sinopse da editora

O prazer e a influência do cinema, da música e da literatura na vida do escritor Luis Fernando Verissimo Sente-se numa poltrona confortável e partilhe do olhar arguto de um espectador muito especial: Luis Fernando Verissimo. Em "Banquete com os deuses", o escritor gaúcho divide com o leitor 73 crônicas divertidas, ternas e peculiares sobre sua relação com a arte e a cultura. Em suas aventuras literárias, o autor cria em No céu uma hilária e inusitada conversa entre o descrente Italo Calvino, Jorge Luis Borges e Nabokov enquanto bebem um chá "a única bebida para passar a eternidade, segundo Borges, embora Calvino argumente que algo mais forte faria a eternidade passar mais depressa". "Banquete com os deuses" reúne textos assim. Lembranças do menino sensível e seu deslumbramento diante da magia da grande tela. Confissões de um cinéfilo entusiasta, falando dos filmes, astros e estrelas que marcaram sua vida. Impressões do leitor voraz ao longo de suas aventuras literárias. Devaneios de um amante da música, melodiosos como um bom improviso de jazz. Truffaut, Fellini, Chaplin, Flaubert, Marquês de Sade, Miles Davis, Cartola, Chico Buarque, Chet Baker, Salvador Dali estão todos aqui, neste livro em que Verissimo celebra suas grandes paixões e faz do leitor um convidado especial.
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Resenha: Banquete com os Deuses não é sobre mitologia, é sobre o que te faz humano

Quem vê o título Banquete com os Deuses pensa em mitologia grega, em Homero, talvez em um romance histórico com sandálias e raios. Esqueça. Luis Fernando Verissimo não está interessado em Zeus. O banquete aqui é outro: 73 crônicas servidas em porções curtas, cada uma sobre um filme, um livro, uma música que o autor ama. Os deuses do título são Truffaut, Fellini, Borges, Cartola, Miles Davis. A única mitologia que importa é a que a gente constrói com as histórias que nos marcaram.

O livro não tem enredo nem linearidade. É uma coleção de janelas. Você abre uma, vê Calvino discutindo com Nabokov sobre qual bebida combina com a eternidade. Abre outra, encontra o menino Verissimo deslumbrado diante de uma tela de cinema pela primeira vez. Nenhuma depende da anterior, nenhuma prepara a seguinte. Isso não é defeito: é o formato natural da crônica, e Verissimo domina o formato como quem domina a respiração.

73 janelas para o que importa (e nenhuma fechadura)

A estrutura é simples: textos independentes, a maioria com três ou quatro páginas, lidos em minutos. Em "No céu", uma das crônicas mais celebradas, Italo Calvino, Jorge Luis Borges e Vladimir Nabokov tomam chá na eternidade. Borges defende a escolha, chá é a única bebida adequada ao tempo infinito. Calvino não se conforma: algo mais forte faria a eternidade passar mais depressa. A cena é absurda, e é nesse absurdo que mora a inteligência do livro.

O que impressiona não é a quantidade de referências, mas a falta de pose. Verissimo fala de Flaubert e do Marquês de Sade, de Chaplin e de Dalí, com a mesma naturalidade com que comenta um jogo de futebol ou uma anedota de família. Não há hierarquia entre erudito e popular. Cartola e Chet Baker aparecem no mesmo parágrafo que Fellini, e isso não soa forçado. Soa como a cabeça de alguém que viveu cercado de arte e não precisa provar nada a ninguém.

Como o que você consome te consome por dentro

O tema de fundo, que percorre as 73 crônicas sem nunca ser anunciado como tese, é: o que a gente lê, ouve e assiste forma quem a gente é. Não como lição de moral, mas como acúmulo de sensibilidade. Verissimo não argumenta isso. Mostra. Cada texto é um exemplo de como uma canção ou um filme se instalou nele e nunca mais saiu.

A nostalgia está presente, sim, mas é uma nostalgia seca. Sem lágrima, sem suspiro. O autor revisita o passado com o olhar de quem sabe que nem tudo envelhece bem, e que parte da graça está justamente em reconhecer o que era modismo passageiro. Quando ele fala do cinema que via na infância, você enxerga o menino deslumbrado. Só que também enxerga o adulto que entende por que aquilo o deslumbrou, e que não confunde deslumbramento com qualidade.

O humor atravessa tudo. Verissimo acha graça onde outros achariam solenidade. Uma discussão teológica sobre bebidas na eternidade vira piada, mas nunca piada vazia. O riso aqui não é fuga. É ângulo. Uma forma de olhar o mundo que revela mais do que qualquer seriedade forçada.

A arte de falar difícil de um jeito que parece fácil

A prosa de Verissimo é curta, limpa, sem gorduras. Nenhuma frase se alonga mais do que o necessário. Nenhum adjetivo aparece por enfeite. A inteligência do texto não está no vocabulário raro, está na observação precisa. Uma tirada sobre Borges defensor do chá diz mais sobre eternidade e personalidade do que dez parágrafos de filosofia.

O ritmo é outro ponto forte. As crônicas são curtas, mas não apressadas. Cada uma ocupa o tempo exato para desenvolver uma ideia e encerrar com um fecho que, na maioria das vezes, deixa algo reverberando. Não é leitura para devorar em uma sentada. Funciona melhor aos poucos, dois ou três textos por vez, como quem petisca em vez de se empanturrar.

Se há uma ressalva, é que o Verissimo de Banquete com os Deuses não difere muito do Verissimo de outros livros de crônicas. O humor, as referências, o jeito de fechar um texto com uma virada, para quem já leu bastante do autor, algumas fórmulas soam familiares. Não é um defeito grave. É mais como encontrar um amigo que conta as mesmas histórias boas de sempre: você ainda ri, mas já sabe o final de algumas.

Quem vai querer lugar na mesa (e quem deve ficar no bar)

Se você já gosta de Luis Fernando Verissimo, Banquete com os Deuses é um prato cheio. É o autor em seu habitat natural, falando das coisas que ama com o humor e a inteligência de sempre. Para quem nunca leu nada dele, funciona como porta de entrada generosa: aqui as referências estão expostas, o que ajuda a entender de onde vem o olhar que percorre toda a obra.

Leitores que gostam de cinema, jazz, literatura e cultura em geral vão encontrar um banquete de afinidades. Mas se você espera uma narrativa com começo, meio e fim, este livro não é para você. A estrutura de crônicas soltas pede outro ritmo de leitura, sem pressa, sem obrigação de chegar ao final. É um livro para ter na mesa de cabeceira, não para carregar na mochila até terminar. Outro aviso sincero: se você busca um Verissimo renovado, com experimentações ou mudanças de tom, também não vai encontrar. Aqui ele faz o que sempre fez, e faz bem. Só não espere surpresas.

Vale a pena? Só se você gosta de sair de um jantar com fome de mais

Sim, vale. A coletânea entrega exatamente o que promete: um banquete de referências servido com humor e inteligência. Verissimo alcança algo raro, falar de Borges e Cartola na mesma respiração sem que nenhum dos dois pareça deslocado. Para descobrir pela primeira vez, é ótimo. Para revisitar, é confortável. A ressalva das fórmulas conhecidas impede a nota máxima, mas não diminui o prazer da leitura.

O que fica ao fechar o livro é uma vontade estranha: correr para assistir a um filme do Truffaut, ouvir um disco do Chet Baker, reler Calvino. Banquete com os Deuses não é um livro que se encerra em si mesmo. É um livro que abre portas. E a última sensação não é de saciedade, é de fome.

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Nossa Avaliação

4.0/5

Escrita
4.5/5
Originalidade
3.5/5
Recepcao
4.0/5
Ritmo
4.0/5

Verissimo mantém o padrão de qualidade que o consagrou: prosa econômica, precisa e divertida. O ritmo das crônicas curtas funciona bem para leitura fragmentada, e a originalidade está na forma como costura referências eruditas e populares sem hierarquia. Como coletânea, porém, repete fórmulas do autor que leitores assíduos já reconhecem, o que limita a surpresa. Mesmo assim, a consistência da escrita sustenta bem a nota alta.


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Perguntas frequentes

Sobre o que é Banquete com os Deuses?

É uma coletânea de 73 crônicas de Luis Fernando Verissimo em que ele compartilha suas paixões por cinema, música e literatura. O livro mostra como a arte moldou o olhar do autor ao longo da vida, com textos que vão de lembranças de infância a conversas imaginárias entre gigantes como Borges e Calvino.

Para quem esse livro é indicado?

Para quem já gosta de Verissimo e quer vê-lo em seu habitat natural, falando das coisas que ama. Também funciona como porta de entrada para novos leitores, porque aqui as referências estão expostas. Se você curte cinema, jazz e literatura, vai se sentir em casa. Já se você busca uma narrativa com começo, meio e fim, ou um Verissimo diferente do de sempre, é melhor procurar outra coisa.

Como é a escrita de Luis Fernando Verissimo neste livro?

Direta, econômica e cheia de humor. Verissimo escreve frases curtas, sem adjetivos sobrando, e acha graça onde outros achariam solenidade. A inteligência está na observação precisa, não no vocabulário raro. Cada crônica cabe em poucos minutos de leitura, mas costuma deixar algo reverberando depois.

O livro tem algum defeito?

Para quem já leu bastante do autor, algumas fórmulas soam familiares. O humor, as referências, o jeito de fechar um texto com uma virada — o Verissimo de Banquete com os Deuses não difere muito do Verissimo de outros livros de crônicas. Não chega a ser um defeito grave, mas limita a surpresa para leitores assíduos.

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Atualizado em 15/08/2026

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