Retrato do Artista Quando Coisa

Retrato do Artista Quando Coisa

Retrato do Artista Quando Coisa, de Manoel de Barros, é um livro de poesia publicado originalmente em 1998 que subverte a gramática tradicional para valorizar a natureza e as pequenas insignificâncias do Pantanal. Dividido em duas partes, propõe a fusão do artista com elementos simples como pedras e orvalho.

por Manoel de Barros

4.5/5
Editora: Alfaguara
Páginas: 94

Sinopse

Sinopse da editora

O regresso à condição de "coisa" pressupõe a libertação das amarras racionais da vida dita civilizada, permitindo assim a criação espontânea e autêntica do poeta. Publicado originalmente em 1998, Retrato do artista quando coisa traz, nessa edição, prefácio de Regina Zilberman e imagens do acervo pessoal de Manoel de Barros. No ano de nascimento de Manoel de Barros - 1916 -, James Joyce lançou Retrato do artista quando jovem, romance que iniciou o projeto de desarticulação da linguagem que se transformaria em uma marca do escritor irlandês. Não é difícil reconhecer os vínculos de Retrato do artista quando coisa com esse contexto. Além da subversão à lógica da sintaxe e da morfologia das palavras, este livro demonstra, mais uma vez, a conexão de Manoel à natureza. Como pedra, bicho, musgo ou qualquer outro ínfimo ser, o poeta se veste e reveste da paisagem pantaneira, construindo versos de uma força e lirismo impressionantes. Dividido em duas partes - "Retrato do artista quando coisa" e "Biografia do orvalho" -, este volume fala das insignificâncias, das coisas simples e pequenas, que são o projeto poético e ético de Manoel, presentes não apenas aqui, mas em toda a sua obra. "Manoel de Barros é um de nossos poetas mais originais de todos os tempos." - O Globo "Agora em seu Retrato do artista quando coisa, não contente em descoisificar o mundo, Manoel se coisifica e de poeta passa a ser, ele mesmo, parte integrante da poesia. Como naquele jogo de descobrir o bicho oculto num desenho, podemos descobrir o Manoel no poema." - Fausto Wolff
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Resenha: vale a pena ler Retrato do Artista Quando Coisa, de Manoel de Barros?

Em 1916, ano em que Manoel de Barros nasceu no Mato Grosso, James Joyce publicava seu clássico romance de formação sobre a juventude do artista. Oitenta e dois anos depois, em 1998, o poeta brasileiro respondeu a essa tradição com Retrato do Artista Quando Coisa, trocando a pose de gênio pela matéria bruta da terra. A proposta aqui não é explicar o mundo nem criar teorias grandiosas, mas rebaixar o ego até a altura do chão pantaneiro, onde o ser humano finalmente se cala para escutar o que não tem utilidade prática.

Publicado pela editora Alfaguara com imagens de acervo e notas críticas, o volume traz a maturidade de um autor que passou a vida inteira burilando a mesma obsessão: desaprender a falar como adulto funcional para reaprender a ver como bicho.

Entre a pedra e a biografia do orvalho

O livro é organizado em duas partes complementares: a que dá título ao volume e a seção intitulada "Biografia do orvalho". Quem abre as páginas esperando sonetos rimados ou confissões sentimentais de diário vai tomar um susto imediato. Não existe narrativa contínua nem lógica de causa e efeito. Manoel de Barros opera como um camaleão curioso que senta na beira do brejo e espera o tempo passar até virar musgo, casca de árvore ou poça d'água.

A primeira metade desconstrói a figura do escritor como alguém especial, enquanto a segunda eleva o orvalho matinal a acontecimento histórico. Essa inversão de valores organiza todo o percurso dos poemas, tratando o minúsculo com solenidade e a vaidade humana com serena indiferença.

O elogio das insignificâncias contra a pressa moderna

No centro da obra está a recusa deliberada da produtividade. Enquanto a sociedade mede valor pelo tamanho do patrimônio ou pela velocidade das respostas, esses versos apostam no que sobra: o inseto sem nome, a lata enferrujada no quintal e a água parada. É uma postura poética e ética que atravessa a melhor tradição de livros de poesia brasileira contemporânea.

O ponto alto é a capacidade de criar encantamento genuíno sem apelar para melodrama. O texto não tenta convencer você de nada; ele apenas expõe a beleza crua daquilo que a rotina costuma jogar fora. Se você já leu outros volumes do autor, como Tratado Geral das Grandezas do Ínfimo, vai reconhecer de imediato essa mesma defesa apaixonada do que a civilização considera lixo ou desperdício de tempo.

Como Manoel de Barros desmonta a gramática tradicional?

A escrita de Manoel de Barros pega a língua portuguesa e entorta sua estrutura sintática, como quem trabalha um graveto torto de cerca velha até achar o equilíbrio. Substantivos viram verbos, adjetivos mudam de lugar sem aviso e a pontuação obedece ao ritmo da respiração, não ao manual de redação escolar.

Essa liberdade formal é o grande trunfo do livro, mas também o motivo pelo qual alguns leitores estranham o início da leitura. Como os versos se recusam a entregar conclusões óbvias, a leitura exige paciência. Se você tentar devorar as noventa e quatro páginas de uma só vez, a repetição do vocabulário pantaneiro pode soar monocórdica. O segredo é ler em doses homeopáticas, deixando cada imagem assentar na memória antes de passar para o poema seguinte.

Quem aproveita a leitura e quem prefere ficar em terra firme

  • Puxe uma cadeira se você gosta de poesia contemplativa, aprecia experimentações de linguagem que desafiam a lógica comum e quer descobrir novas formas de enxergar a natureza brasileira.
  • Deixe na estante se você procura narrativas com começo, meio e fim, prefere poemas de métrica tradicional e rimas regulares, ou se irrita com textos que exigem desaceleração total da rotina.

Veredito: por que essa poesia ainda surpreende

Vale a pena ler Retrato do Artista Quando Coisa se você quer desacelerar o olhar e experimentar versos que desconstroem o português formal com extrema elegância. O livro encerra a brincadeira iniciada em relação ao título modernista de Joyce com uma vitória tranquila do quintal sobre os monumentos de mármore. Em vez de erguer um pedestal para si mesmo, o autor prefere a companhia dos caramujos, entregando um clássico silencioso que continua desafiando o leitor apressado a prestar atenção no chão.

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Nossa Avaliação

4.5/5

O livro reúne a maturidade poética de Manoel de Barros com um domínio ímpar da desconstrução da sintaxe, criando imagens memoráveis sobre a natureza. O ritmo exige pausas entre os poemas para evitar a sensação de repetição temática, mas o saldo é uma obra altamente original da poesia brasileira.


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Perguntas frequentes

Qual é o tema principal de Retrato do Artista Quando Coisa?

O livro investiga a relação do ser humano com o mundo natural, propondo que o poeta deixe de lado as vaidades civilizadas para se integrar à paisagem pantaneira e às coisas simples da terra.

Quantas páginas tem o livro Retrato do Artista Quando Coisa?

A edição publicada pela editora Alfaguara conta com 94 páginas.

Como o livro se divide?

A obra é estruturada em duas partes poéticas principais: 'Retrato do artista quando coisa' e 'Biografia do orvalho'.

Quem publicou Retrato do Artista Quando Coisa no Brasil?

O livro foi publicado pela editora Alfaguara, incluindo prefácio crítico de Regina Zilberman e fotografias do acervo do autor.

Livro PDF "Retrato do Artista Quando Coisa"

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Atualizado em 17/08/2026

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